sábado, 27 de novembro de 2010

Da Foto.

Boa noite!

Não demorei tanto para voltar aqui dessa vez, e eu gostaria muito de falar que isso já é um progresso, mas são tantas as vezes que já falei a mesma coisa que prefiro ver no que vai dar.
Meu texto hoje é um pouco diferente, como o título sugere. Quero propor um retrato - superficial, admito - típico de uma cidade brasileira, e fazer alguns comentários breves sobre ele. Vejamos se vai dar certo.

Gostaria de saber o que acontece com o mundo. Talvez falando "com o mundo" fique um pouco pretensioso, eu sei. Fiquemos restritos ao Brasil. Não que isso seja muito difícil, é claro, já que o povo brasileiro tem o costume - não muito saudável - de se restringir.

Sejamos sinceros. Duvido muito que alguém esteja realmente feliz com a situação social, política e jurídica do nosso país. Vemos miséria numa esquina, tropeçamos num cadáver na próxima e somos por fim assaltados pelo criminoso, que deveria estar na prisão por homicídio, mas que foi solto quando não merecia a liberdade. Não acabou, e é mesmo penoso pensar assim.

Sobrevivendo a este aperitivo exposto acima, começamos a passear pela cidade, um tanto assustados, é verdade, e pensando em como conseguir mudar algo. Mas pensar é difícil! Não é possível arranjar concentração, e o motivo é óbvio. Logo ali à frente, uma família paupérrima passa fome, escondida sob um viaduto (completamente pichado, é claro). Acrescente-se à fome aquela chuva que caiu hoje e o fato de o viaduto estar alagado até quase a metade, o filho mais velho estar desaparecido há duas semanas, quando foi visto entrando em um carro perto da Nova Luz, a filha do meio, ainda pequena, estar passando pela infância sozinha e sem alfabetização, e o filhinho de colo, nascido por volta do dia que o outro sumiu, estar ardendo em febre depois de nascer na rua, sem condições de ser atendido nem mesmo por hospitais da rede pública.

É suficiente para a concentração em qualquer pensamento se perder? Claro que é. Até para ler fica difícil! Mas não acabou. Olhando para o lado oposto da avenida, ainda sob o viaduto, vemos um grupo de jovens num carro novo. Eles param. Descem. Estão sorridentes, e aparentemente um pouco fora de si. Talvez não só um pouco, já que começam a agredir o carroceiro que dormia daquele lado. Depois da covardia, vão embora.

Parece mentira, é como se fosse só uma história inventada. E essa realmente é. Ocorre que coisas assim acontecem todos os dias nas cidades do nosso país. Todos os dias morrem seres humanos nas mãos de outros seres humanos. Ricos, pobres, velhos, jovens, não importa quem está em qual papel. Um é o agressor, o outro a vítima.

E isso não basta. A fome é também um problema real e atual no nosso país. Assim como a saúde e a impunidade. E a desculpa? Simples:

"FALTA DINHEIRO! FALTA RECURSOS!"

E sabem de uma coisa? Falta mesmo! Mas não falta porque não entra dinheiro nos cofres públicos. Falta é por culpa de uma corja de políticos corruptos que são eleitos, eleição após eleição. Por causa dessa gente que fecha os olhos para a miséria de crianças morrendo de fome, para poder encher o bolso com dinheiro público. E mais que tudo, por causa desse bando de manipuladores, que deixa a massa ignorante e cega para ser melhor controlada, e assim manter-se no poder.

É por isso, (e)leitores, que o retrato da nossa terra e nossa gente é tão doloroso de se contemplar. E é por isso, também, que é tão revoltante e perigoso o silêncio dos bons.

7 comentários:

Marcus disse...

E é por isso que eu amo (e trabalho com) a História do Brasil. Dá uma saudade de um ou outro assunto e/ou personagem bom. Sim, é saudosismo. Sim, às vezes é masoquismo também. Sim, e daí que eu sou velho?
Em certas circunstâncias, agradeço a Deus por ser "velho", daquele tipo "vôzinho legal que cuida do jardim", sabe? Que conhece histórias legais que animam a gente e fazem esquecer que o mundo é complicado...
Aí mesmo, amigo, com uma figura que o sr conhece, aconteceu um fato que eu achei interessante: o casal foi aos arredores da Praça da Sé pela alta noite, única e exclusivamente para curtir o perigo da tal "marginalidade", só porque o carro do viadinho é blindado.
=)
Quem foi? Ah... Uma figura que, teoricamente, estuda para solucionar destacadamente os problemas que solapam as mazelas históricas da sociedade.
...

Sim, a História é grande COMPANHEIRA, amigo. Ela NUNCA nos abandona e SEMPRE nos ensina.
Se Deus quiser, um dia hei de ter saudade do futuro também (já que sempre meio bobo e sonhador, às vzs).

Parabéns de novo é mto simplório. Escreva mais.
...
Scheisse dum país. ¬¬

Lissa Ruiz disse...

Como sempre, muito bom, Dani.. O único problema é que seu blog não é acessado por todos os brasileiros, porque se fosse, talvez assim, o resultado das eleições seria diferente. Mas é como dizem: a esperança é a última que morre. Espero estar viva para ver uma mudança nesse sistema, não é possível que seja sempre assim. Quanto aos imbecis que tomam atitudes daquelas, pelo visto, esses nunca vão mudar, enquanto não acontecer algo parecido com eles, mas novamente, a esperança é a última que morre.. nunca pare de escrever, mané.. você manda muito bem! =)

Unknown disse...

Muitíssimo bom o texto, parabéns! O que você conseguiu expressar em palavras é o que muitos de nós pensamos, mais não temos a mesma capacidade que você tem. Essa é a verdade não só pra essa cidade onde tudo foi visto, mas sim em todo canto do país. Dói? dói, com certeza.O que podemos fazer por isso? Nada além do feito. Porque a gente paga imposto para essas melhoras, mais elas simplismente não acontecem. Mas quem sabe com o poder das eleições, um dia isso mude.. Beijoo

Daniel Andrade disse...

Obrigado pelos comentários, todos. =D

Acho que nunca respondi aqui, mas o que realmente anima a escrever é ler os comentários e ver a troca de idéias.

Haifa, discordo de vc quando diz que nada pode ser feito, além do que já está sendo. Acho que muita coisa pode ser feita, é só as pessoas terem vontade e coragem para isso. É disso que falo em "Do Marasmo", que escrevi há um tempinho.

Enfim, de novo agradeço pela visita!

Camila Soufen disse...

Parabéns, concordo com tudo o que você disse é a mais pura realidade. Como a Lissa disse '' O único problema é que seu blog não é acessado por todos os brasileiros, porque se fosse, talvez assim, o resultado das eleições seria diferente''

Angélica Albuquerque disse...

É tanta verdade...
não tenho muito oq dizer desta vez. Porque fiquei meio que em estado de choque!

Postei no facebook, espero que mais alguem fique do jeito que eu fiquei!

Giovana disse...

Russel diria que vc faz parte do seleto grupo de "alguns". Apenas alguns dentre muitos tem a grandeza de espírito de não desejar apenas o seu bem, mas o bem coletivo.
Com um olhar atencioso e uma escrita bem afiada você consegue despertar o senso crítico de pessoas. Pessoas que formam a sociedade, pessoas que tem poder de voto, cidadãos pensantes que tem capacidade em potencial para mudar. A mudança geralmente é gradativa, é realizada aos poucos, vem tão vagarosamente que a sentimos de maneira suave e natual. Amanhã, digo depois de hoje, e não o futuro em sentido amplo, tudo estará igual ainda. Mas, com a mudanças das pessoas, passado amanhã e depois, e depois, as coisas já não estarão como antes. Isso, só se as pessoas mudarem. Para a sociedade mudar, e consequentemente os políticos e o governo mudarem, é preciso uma mudança de mentalidade e, principalmente, de atitude, de forma coletiva.
Gradativamente, com a mudança coletiva da mentalidade da sociedade, e com o despertar do senso crítico de cidadãos pensantes, como você faz aqui no seu blog, Dani, podemos conseguir uma mudança, sim, ainda que seja sentida aos poucos, no decorrer dos anos, acompanhando a gradativa evolução social.
"Os grandes inovadores éticos não foram homens e mulheres que soubessem mais que os outros; foram homens e mulheres cujos desejos eram mais impessoais e de maior âmbito que os homens e as mulheres comuns. A maioria dos homens e mulheres deseja sua própria felicidade; considerável percentagem deseja a felicidade de seus filhos; poucos desejam a felicidade da nação, e apenas alguns desejam a felicidade de toda a humanidade". Bertrand Russel.
Creio que vislumbrar essa mudança concreta e acreditar nela implica, de algum modo, em não deixar se perder o brilho da confiança genuína (:D).
Parabéns, Dani.
Um beijo grande,
Gi