terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Da FEB e da ONU: Questão extra-oficial, por Marcus Carmo

Em Janeiro de 2010 o mundo passou a se interessar mais pelo Haiti, devido aos terremotos que assolaram o país desde o dia doze. Órgãos de imprensa acompanharam os trabalhos de resgate e assistência prestados naquele que é o mais pobre país da América. Alguns órgãos da mídia assumiram a função de urubus, inclusive. A missão passou a ser muito mais importante, fato que destacou a presença do Brasil, cujas tropas do Exército lideram a MINUSTAH (sigla em inglês que representa a Missão das Nações Unidas pela Estabilização do Haiti).

Cerca de 1300 militares brasileiros representam a ONU no Haiti. Os hospitais do Exército e da Força Aérea Brasileira tiveram importância vital no delicado trabalho de salvamento das vítimas dos terremotos. Suprimentos enviados do Brasil, naturalmente, contribuíram muito para o auxílio àquele povo faminto, bem como os R$375 milhões doados pelo governo Brasileiro, por decisão do presidente Luís Inácio da Silva.

A distribuição de gêneros chegou a ser articulada pela ONU para que ocorresse em uma operação harmônica, mista de tropas brasileiras e estadunidenses. Notícias corriam que as tropas norte-americanas abusavam do poder no Haiti, inclusive como controladores de vôo. Tal fato gerou uma indisposição entre as tropas dos EUA e do Brasil. Haitianos também reclamavam nas ruas o excesso de militares no país, muito embora a polícia haitiana tivesse sérias dificuldades em controlar a segurança pública.

Os haitianos, porém, não reclamaram do trabalho desenvolvido pelas tropas da ONU - inclusive brasileiros - quando estas lhes matam a fome, a sede e servem com seus profissionais de saúde, além de resgatar, organizar, proteger, policiar, construir e instruir. Eis a semelhança entre a FEB e as tropas do Exército em missão com a ONU.

A missão oficial do Exército Brasileiro, pela ONU, tem objetivo claro de serviço social. A FEB, por sua vez, tinha a missão oficial de combater o nazi-fascismo. Única e exclusivamente, a guerra: essa era a missão da FEB. Porém, a FEB assumiu, também, a missão extra-oficial de serviço social, no objetivo claro de auxiliar àqueles italianos que sofriam com uma crise tremenda, com falta de absolutamente tudo.

Onde havia cidade, os alemães destruíram. Senão os alemães, o combate aos alemães trouxe a destruição. No campo, o perigo terrível das minas plantadas pelos alemães na retirada, ou o risco de estar na "terra de ninguém", ou sofrer com bombardeios e tiroteios. Na cidade ou no campo, o italiano estava sujeito a perder sua casa, fosse pela fúria da guerra ou pela presença de quem faz a guerra, ocupando propriedades. Obviamente, a destruição e a miséria não eram totais. Havia ainda prédios, campos e pessoas que sobreviviam às tragédias - inclusive alguns lucrando com o mercado negro, a explorar a desgraça reinante.

Naturalmente, os brasileiros prestaram auxílio aos italianos. Naquela campanha, não poderia ser quebrada a harmonia com o exército dos EUA - mais especificamente as tropas do V exército, do General Mark Clark. Nesse interim, a FEB cumpriu seu dever. Os expedicionários brasileiros, por sua vez, elevaram a valorização da FEB junto aos italianos, pois, pela solidariedade praticada no Velho Mundo, a Força Expedicionária Brasileira serviu como embrião das Forças de Paz da ONU.

O primeiro Secretário-Geral da ONU foi o brasileiro Oswaldo Aranha, principal responsável pela aliança do Brasil com os Aliados durante a II Guerra, especialmente os EUA. Por questão protocolar, a Assembléia Geral da ONU sempre é aberta por um brasileiro. Apenas em 2001 foi quebrada a tradição, quando o presidente dos EUA, George W. Bush, abriu a Assembléia por respeito às vítimas dos atentados de 11 de setembro. Ao findar a II Grande Guerra, o Brasil estava alçado entre as nações ocidentais promotoras da "democracia". A condição de país industrializado era desenvolvida, enquanto a FEB e a FAB assinalavam a condição de tropa moderna, cujos veteranos poderiam servir de "professores" na formação militar do brasileiro. Comandantes aliados reconheceram a eficiência das tropas brasileiras, como fizeram, mais tarde, alemães que combateram a FEB.

A solidariedade do soldado da FEB, por sua vez, só foi reconhecida por prisioneiros alemães e italianos que outrora tiveram contato direto com os expedicionários, convivendo com eles. No Brasil, ironicamente, os louváveis exemplos de caridade prestados pelos pracinhas na Itália são muito pouco conhecidos, quando não banalizados.

Por essas e outras que a história da FEB merece resgate - com todo respeito ao Haiti e sem ironizar suas tragédias.

* Artigo escrito por Marcus Carmo